Entrevista Revista Claudia

Revista Claudia – 08/2010 – Três ideias para colher saúde
Nunca as pessoas se preocuparam tanto em comer direito – e não apenas para perder ou manter o peso. Agora os ventos sopram a favor da busca por uma comida natural, que reforce a imunidade e ainda ajude a salvar o planeta. Afinal, se vamos viver mais, como prevê a ciência, que a nossa longa jornada seja melhor e saborosa
Há uma revolução silenciosa em curso. Ela diz respeito ao que colocamos no prato e mexe com nossas crenças a respeito de alimentação. Também nos obriga a refletir sobre como o que comemos tem potencial para garantir um futuro saudável – ou complicações na certa. CLAUDIA entrevistou os especialistas mais antenados em nutrição e, amparada em teses consistentes – não, nada da dieta da moda ou da novíssima pesquisa sobre as propriedades milagrosas do ovo, para ficar só num exemplo -, identificou as três principais tendências que, nos próximos anos, devem se espalhar como uma imensa ola pelo planeta.
Prepare-se para ser surpreendida e para repensar o que pensa sobre comer bem. Lembrando: uma coisa é saber que precisamos fazer ajustes; outra é desejar mudar o que é preciso; e outra, bem mais complexa, é pôr a mudança em prática. A gente sabe disso, mas não dá para ficar indiferente ao que vem por aí.
1. FAÇA VOCÊ MESMA
Que tal você preparar na hora o alimento que vai comer e só usar ingredientes frescos? Não, não é conversa de avó para preservar as receitas da família: é o mantra que vem sendo repetido por alguns dos mais modernos especialistas em nutrição do mundo. “Coma comida de verdade”, prega o jornalista americano Michael Pollan, autor dos best-sellers Em Defesa da Comida – Um Manifesto e Regras da Comida – Um Manual da Sabedoria Alimentar (ambos Ed. Intrínseca). Para ele, o importante é retomar o velho hábito de adquirir carnes, peixes, ovos e leite diretamente do produtor, como faziam nossos antepassados. Tudo preparado à moda antiga, com simplicidade, acompanhado de verduras, cereais integrais e frutas in natura.
Em entrevista a CLAUDIA, a escritora e ex-fazendeira Nina Planck, considerada uma guru de nutrição nos Estados Unidos, defende a causa e, com a autoridade de quem pôs em prática os ditames que agora apregoa, recomenda que os alimentos de origem vegetal sejam consumidos sempre que possível crus. “O importante é que venham de produtores confiáveis para garantir uma refeição nutritiva, capaz de fortalecer o corpo e ajudar a manter o peso”, diz. Dessa maneira, vamos comer direito sem espantar o prazer. “Quem tem uma dieta equilibrada e natural pode até cometer pequenos deslizes”, diz Pollan. Ceder ao açúcar, à gordura e ao sal de vez em quando não é pecado. E, já que a natureza nos deu o gosto por alimentos doces, vamos adotar o hábito de saborear o açúcar natural de frutas e até de algumas hortaliças, como a erva-doce. Esses alimentos, assim como o mel, também fornecem energia, além de minerais e vitaminas que não existem em nenhum outro produto. “As gorduras encontradas no reino vegetal, prontas para consumo, são benéficas. Aposte em castanhas, nozes e avelãs, além de sementes como linhaça e quinua”, diz o médico Alberto Peribanez Gonzalez, de São Paulo. O sal, outro nutriente mal-afamado, é indispensável pois equilibra os líquidos no corpo. Com a responsabilidade de não exceder a dose diária de 5 gramas.” Moderação é a chave: engordamos quando nos faltam esses micronutrientes. O organismo sente a privação e nos incita a comer mais e mais.
Para os pesquisadores, o importante é evitar sempre que possível os produtos industrializados. “Eles não passam de substâncias comestíveis que imitam comida de verdade e não beneficiam a saúde”, afirma Pollan. Segundo ele, a indústria alimentícia surgiu para aumentar a durabilidade dos produtos e usa substâncias químicas como conservantes, estabilizantes, corantes e espessantes. “O argumento de que a quantidade desses aditivos é mínima e está abaixo do teor considerado tóxico não é válido. Ao final de cada dia, você terá ingerido uma carga de substâncias artificiais que ultrapassa o aceitável”, acredita. Mas Pollan e sua turma não pregam a proibição total do consumo de alimentos industrializados, até porque não seria nada prático. “Mas defendo que se fuja dos alimentos processados a ponto de se transformarem em algo bem distante do natural”, diz ele.
Palavra de CLAUDIA – Resgate o prazer de comer, de descobrir os sabores reais, de preparar a refeição e reforçar a convivência familiar em volta da mesa. Vá à feira sempre que puder e escolha alimentos frescos no supermercado. Se não for possível cozinhar todos os dias, aproveite o fim de semana ou determine uma das refeições do dia para comer bem – reforçar o café da manhã com pão integral, geleias caseiras, sucos de frutas espremidas na hora. Encare o desafio de comer menos e ficar em paz com a balança. Pesquisas apontam uma relação entre restrição calórica e aumento da expectativa de vida. Os cientistas vão além: apenas 35% da longevidade se deve à herança genética. Mais determinantes do que os genes para prolongar a vida são os bons hábitos.
2. ECOLÓGICA À MESA
Pensou em comida orgânica? Acertou. Mas não basta que seja orgânica. Em prol do futuro do planeta, ela tem que ser cultivada de acordo com os preceitos da sustentabilidade. Talvez você não tenha parado para pensar que sua decisão sobre o que colocar no prato tem implicações econômicas, éticas e ambientais. O que está em jogo é toda a cadeia alimentar – do solo ao ser humano. Se a terra estiver doente, o capim que nela cresce e o gado que se alimenta dele também adoecerão. Idem para nós, que bebemos o leite produzido pelas vacas. Ou seja, a saúde do meio ambiente afeta a nossa saúde. “Herbicidas, inseticidas, fungicidas e bactericidas matam os micro-organismos que atingem as plantações, mas também são responsáveis pela contaminação dos alimentos, pelo envenenamento de rios e pela redução de 40% da área cultivada em todo o globo”, conta em entrevista exclusiva a CLAUDIA a geneticista americana Pamela Ronald. Ela é coautora do livro Tomorrow’s Table (A mesa de amanhã), ainda não publicado no Brasil, mas que está fazendo grande barulho nos Estados Unidos. Nele, propõe o casamento da engenharia genética com a agricultura orgânica para produzir comida natural de boa qualidade e livrar o meio ambiente da degradação. No Brasil, embora liberados, os transgênicos são vistos com certa desconfiança por se tratar de uma tecnologia nova. Mas, segundo a geneticista, a junção entre eles e a agricultura orgânica, que ainda não aconteceu por aqui, poderá garantir a nossa saúde e a do planeta. No quesito toxicidade, a situação brasileira é preocupante. Para ter uma ideia, das 3130 amostras de 20 alimentos coletadas pela Anvisa no ano passado, 29% apresentaram irregularidades, como resíduos de agrotóxicos acima do permitido e ingredientes ativos não autorizados. Alguns já são proibidos em várias partes do mundo, como o monocrotofós e o tricloform. Pimentão, uva, pepino, morango, couve, mamão, tomate, arroz e até feijão figuram entre os mais contaminados. Além do perigo que representam para a saúde, as plantas cultivadas com agrotóxicos são nutricionalmente inferiores. Crescem mais depressa, suas raízes são menores e não assimilam todos os minerais do solo. Diferente das plantações orgânicas, que vêm de solos tratados por adubos naturais ricos em benefícios.
O mercado de orgânicos cresce muito e faz parte do que é considerado moderno e saudável – o plantio consciente e “natural”. Além disso, o consumo de alimentos funcionais também está aumentando. Para que possam ser comercializados com esse rótulo, é preciso comprovar, por meio de estudos clínicos e laboratoriais, que os produtos possuem a quantidade necessária de fitoquímicos, substâncias que são verdadeiros escudos contra diversas doenças, da osteoporose ao câncer. A preocupação com o que se come é tanta que uma pesquisa realizada em todo o território nacional pelo Departamento de Agronegócio da Fiesp mostrou que 80% da população aceitaria pagar mais por alimentos produzidos com práticas sustentáveis. Só que isso não basta. O médico Alberto Gonzalez enfatiza a importância de comprar dos produtores locais: “A maior parte das hortaliças, frutas e castanhas que consumimos vem transportada de grandes distâncias, por caminhões ou avião. Quanto mais tempo essas frutas e verduras ficam longe do solo, maior é a perda de seu valor nutricional e o risco de estragar”.
Palavra de CLAUDIA – Deixe-se levar por essa onda saudável e previna doenças com alimentos certificados. Vale investir seu rico dinheirinho em sua saúde e na da família: é economia de remédios no futuro. Consuma alimentos crus, cujos nutrientes são mais bem preservados, e sementes germinadas – trigo, centeio, soja e linhaça -, que são antibacterianas e desintoxicantes. Descubra o prazer de cultivar em casa temperos, ervas terapêuticas, verduras e legumes. Uma horta caseira garante alimentação saudável, sem agrotóxicos, além de reforçar o respeito à natureza.
3. QUASE VEGETARIANA
Flexitarianismo: o neologismo é autoexplicativo e define a corrente adotada pelos que fazem dos vegetais a base da sua dieta, mas, flexíveis, consomem carnes de forma esporádica e com moderação. “Nunca, porém, como prato principal”, ressalta o especialista Michael Pollan. Muitos estudos comprovam que os vegetarianos são menos suscetíveis à maioria das doenças. No entanto, até hoje a ciência não conseguiu provar cabalmente quais tipos de alimentos ricos em gordura animal provocam moléstias cardíacas, como tanto se propaga. Pelo contrário, uma análise de 21 estudos realizados ao longo de 23 anos, divulgada em fevereiro, não encontrou relação direta entre o consumo de gordura saturada e o maior risco de infarto e derrame.
Diminuir as porções de carne e ingeri-las com menos frequência é a proposta que deve atrair mais adeptos nos próximos anos. Tudo também para incentivar a preservação ambiental e ampliar a consciência ecológica. No livro Magra & Poderosa (Ed. Intrínseca), que ficou semanas em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, nos Estados Unidos, as autoras Rory Freedman e Kim Barnouin listam as condições precárias em que são confinados os animais antes de serem abatidos: “Já não há amplas pradarias ou pastos verdes brilhantes. Vacas, galinhas e porcos são amontoados e vivem em situação estressante. Essa é a qualidade da carne que nós consumimos.” Vegetariano radical, Jeffrey Moussaieff Masson, autor do livro The Face on Your Plate – The Truth about Food (O rosto no seu prato – a verdade sobre a comida), ainda não publicado no Brasil, lembra que a pecuária utiliza 70% de toda a terra cultivável e 30% de toda a superfície terrestre. “São consumidos quase 50 mil litros de água para produzir menos de meio quilo de carne vermelha, dez vezes mais do que o necessário para se obter meio quilo de proteína vegetal”, protesta. “A manutenção de rebanhos polui mais a água de rios e lagos do que todos os dejetos industriais juntos.” Isso sem falar no gás metano, oriundo da flatulência dos bois, que está entre os principais causadores do efeito estufa.
Palavra de CLAUDIA – Risque do cardápio espécies de peixe pescadas em época imprópria e que, por isso, correm risco de extinção. Adquira carne orgânica (a embalagem traz a informação), que vem de bois alimentados em pastos cultivados sem pesticidas, e consuma com moderação para ajudar a evitar alterações climáticas e preservar o planeta. Ensine as crianças a escolher o que comer e cobre educação nutricional na escola. Quanto mais cedo alimentarmos as novas gerações com informações sobre nutrição saudável, maior a garantia de que elas saberão cuidar de si mesmas e do planeta.
GÔNDOLAS MAIS CONFIÁVEIS
Com tantas informações, estamos nos tornando mais exigentes, preocupados com o modo como são produzidos os alimentos industrializados e com a qualidade real dos nutrientes que eles oferecem. Os fabricantes, claro, estão empenhados em agradar a esse novo consumidor. Assim como em outros países, o Brasil já oferece alimentos certificados ou selos que indicam que na composição houve diminuição nos teores de sal, açúcar e gorduras saturadas – a famigerada trans foi praticamente banida de tudo o que sai da indústria. A adequação dos produtos segue os índices de nutrientes estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com dados do Índice Diário de Referência (IDR) de ingestão. E, para ter certeza de que os fabricantes de fato cumprem os valores determinados para que seus produtos possam estampar o selo, laboratórios independentes realizam laudos técnicos regularmente. Mas não basta informar a quantidade de calorias, o tipo de vitaminas e minerais e o valor nutricional. Para facilitar o entendimento, é importante que os rótulos esclareçam se o produto segue os critérios da agricultura orgânica ou se contém elementos alérgenos na fórmula. Essas são algumas das recomendações do livro Innovations in Food Labelling (Inovações em rotulagem de alimentos), com versão somente em língua inglesa, lançado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
*Colaborador: Bruna Bittencourt
Fonte: aqui

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