O Médico e o Verdureiro

De uns tempos para cá venho me dedicando a entregar verduras a domicílio. Verduras da horta do sítio para pessoas que fazem parte de uma rede de amigos e novos amigos. Ao fazê-lo, visito um desejo oculto de viver uma identidade secreta. Uma roupa velha, um boné e criou-se o personagem. A hora de acordar é quatro da manhã, uma hora muito especial. Abasteço o fusquinha de quarenta sacas de verduras colhidas pelo Seu Geraldo, com quem trabalho em parceria no sítio. Em alguns minutos o carro está abarrotado de sacolas (cabe muita coisa num fusca!).
Sento ao volante, olhando o céu do sítio Nirvana. É um momento especial, de oração, junto ao silêncio, às estrelas e a lua. Percebo a fragrância da salsa e do manjericão como uma comunicação das plantas comigo. As verduras são como crianças, que às vezes soltam seus brinquedinhos: joaninhas, pequenas aranhas e formigas costumam passear pelo interior do carro. Uma destas aranhas ficou morando no carro, e como tinha hábitos noturnos, descia pendurada no retrovisor. Um dia a capturei e a devolvi à horta.
E assim, com o carro repleto de amigos verdes, roupa velha e boné, a lua no céu, me atiro pelo asfalto, com uma longa lista de endereços. Após vencer a Grota Funda, pego uma estação de rádio, e a música se faz presente na composição do cenário.
Talvez sejam as próprias verduras, talvez o brilho da lua, talvez o nascer do sol, que pula dentro da retina durante o trajeto das entregas. Algo diferente, que nunca havia vivenciado, foi me contagiando e me motivando a continuar este trabalho. Ajudado pela imensa capacidade humana de desenvolver personagens (ou seria adaptabilidade?) desenvolvi o gestual típico e a forma de expressão do entregador de verduras.
As semanas como entregador foram se sucedendo, e tornaram-se meses, e agora já completo uma ano e meio de entregas. O ato de entregar, de servir, de distribuir, é uma vivência preciosa. Nesse novo universo, no qual desenvolvi meu personagem “entregador”, convivo com os porteiros, os lixeiros, os seguranças e todos aqueles que trabalham ao nascer do dia. Nessa nova linha de relacionamento, aprendo e reaprendo a me comunicar. Às vezes acontece de um porteiro que não me conhece não permitir minha entrada. Neste momento, a experiência é ainda mais contundente, quando o entregador deve esperar por uma autorização, ou mesmo resignar-se que não deve entregar.
Alguns amigos me perguntam, porque eu faço isto, e não arrumo alguém para fazer a entrega. E eu pergunto: para que delegar a alguém esta tarefa? Tenho muito mais motivos de fazê-la do que o contrário: neste trabalho acontece também de eu ser muito bem recebido, com bate-papos nos portões, ou nas cozinhas de meus clientes. Me vejo então como a pequena aranha, tecendo teias de fios invisíveis, onde as verduras são na verdade apenas um pretexto.
Nesta experiência, conheço a semelhança com os outros, meus clientes, os porteiros, os entregadores, os verdureiros, os lavradores, os motoristas (entregadores de gente), os garis, os pescadores, os pedreiros. Me percebo parte deste todo, cumprindo a minha parte. Ë uma chance inestimável de conhecer um pouco mais a força da humildade. (2004)
2014 – O modelo biogênico está para começar…

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